À conversa com Larysa Kalinichenko, artista plástica

O que mais nos fascinou nos trabalhos de Larysa Kalinichenko foi a harmonia das cores fortes, o simbolismo e as simetrias utilizadas, resultando em trabalhos pormenorizados e muito belos que vibram e nos prendem a atenção do olhar.

Nesta entrevista a artista desvenda um pouco de si, fala-nos da sua infância passada na Ucrânia, numa família humilde onde tudo era muito mais simples, fala-nos da sua paixão pela pintura, do amor que coloca na elaboração de cada obra, do que pretende transmitir, … Não deixe de ler e apreciar algumas das sua obras.

Procuro a liberdade em pintar o que sinto, voando entre as cores.

Adoro pintar os rostos, principalmente os olhos que olham depois da tela para o Mundo como se estivessem vivos.

Quem é a Larysa Kalinichenko? Como e quando veio para Portugal?

Emoções à flor da pele

Nasci em 22 de dezembro de 1970, em Krivoy Rog na Ucrânia, no tempo da União Soviética, numa família humilde. O meu pai era militar e a minha mãe trabalhava num supermercado. Os meus pais trabalhavam muito e tudo fizeram para que nunca me faltasse nada nem a mim nem ao meu irmão mais velho.

Cresci rodeada de crianças simples, depois das aulas da escola brincávamos muito na rua e estávamos por conta do Universo. Desde pequena era muito ligada à natureza, sabia os nomes de todos os bichinhos e plantas e não tinha medo de nada. Era tudo, mas tudo, muito mais simples, não havia telemóveis nem redes sociais, éramos só crianças felizes entregues ao Universo.

A minha formação foi em pedagogia e educação infantil. Estudei na Universidade Estatal de Pedagogia de Krivoy Rog, na Ucrânia. Trabalhei algum tempo como educadora de infância.

Em 1991 nasceu a minha filha do meu primeiro casamento. Nesse ano a Ucrânia tornou-se independente acabando o tempo da União Soviética. O meu país infelizmente entrou numa grave crise, que tornou a vida muito difícil para muitas pessoas, inclusive para mim. Passaram vários anos, a crise continuava e a vida não melhorava e foi precisamente nessa altura que comecei a pensar em emigrar para outro país. O Divórcio levou-me a mudar a minha vida radicalmente.

Ganhei coragem e em 2001 tomei a decisão de emigrar para Portugal à procura da felicidade! Foi uma grande aventura na minha vida! Sem conhecer ninguém, sem falar português… Não foi fácil! Mas o motivo era tão grande para melhorar a qualidade de vida e conhecer um Mundo melhor que às vezes nem ligava ás dificuldades.

E assim começou uma nova etapa na minha vida.

E estou muito grata que o Universo me tenha dado essa oportunidade!

Quando era jovem como imaginava o seu futuro?

Quando era jovem, não me lembro de ter muitos planos, simplesmente imaginava ou sonhava ter tudo bonito à minha volta e do melhor, viver sem me faltar nada, ter sempre conforto e viver ao pé do mar. Engraçado, mas desde miúda sonhava viver ao pé do mar. O mar dá-me muita força, adoro sentir a energia dele.

Quando pela primeira vez vi o oceano, tão grande e tão forte, nesse mesmo dia escrevi o meu primeiro verso “O meu mar”, mais tarde foi publicado no jornal “Slovo” da Editora Porturusso em Portugal em 2002.

Às vezes olho da minha janela para o mar, que é um pouco longe, e penso que os sonhos às vezes se realizam, que  o Universo sempre nos ajuda.

A partir de quando sentiu a necessidade de transpor para a tela o seu universo interior?

Desde que me lembro adorava desenhar a lápis, mas nunca imaginava vir a pintar em tela. Num sítio qualquer onde houvesse papel, lápis ou caneta começava a fazer desenhos na brincadeira. O meu marido reparou nisto e, à cerca de 4 anos, ofereceu-me um cavalete, as tintas de acrílico e as telas. Foi uma surpresa muito grande, foi uma das melhores prendas que já recebi!

A partir daí começou mais uma aventura da minha vida. Sem saber pintar, e mexer com as tintas! Comecei a ver os vídeos no YouTube sobre pinturas, tintas, técnicas, como pintar em tela, lia livros sobre Arte e experimentava ao mesmo tempo pintar na tela. Foi tudo novo, interessante e muito desafiante para mim, e eu me apaixonei pela Arte, desde aquele momento quando agarrei o pincel e dei a minha primeira pincelada na tela, pelo cheiro fresquinho de cada nova tela, pelas cores, tudo isto mexe muito comigo.

A arte transformou a mulher em artista ou o inverso? Em que aspeto?

Posso dizer que a Arte me transformou muito e continua a mudar-me constantemente! E eu adoro bastante isto! Procuro a liberdade em pintar o que sinto, voando entre as cores.

Larysa ainda se lembra quais foram as suas primeiras pinturas? A partir de quando teve as suas primeiras experiências como artista?

Fiz a minha primeira pintura em janeiro de 2015, precisamente no dia em que pela primeira vez agarrei o pincel e pintei o mar e uma gaivota a voar. Vou guardar para sempre esse primeiro quadro que pintei. As minhas primeiras pinturas foram sobre mar, a natureza morta, adorava pintar os Castelos e os sítios históricos de Portugal, pintava um pouco de tudo. Para perceber melhor as técnicas e a mistura das cores e tintas. E foi com estes primeiros trabalhos que aprendi a lidar e a dominar as tintas acrílicas. E só mais tarde, quando senti que conseguia lidar bem com as tintas me aventurei a expor os meus pensamentos na tela.

Considera-se uma artista profissional ou amadora? É uma autodidata?

Cores da vida

Considero-me mais como uma artista amadora, ainda não sou profissional, ainda tenho muito para aprender para ser uma profissional. Sou uma artista autodidata. Tudo o que sei em relação a pinturas e como pintar aprendi por mim própria através dos livros e da internet. Amo a Arte com toda a minha alma.

Um pouco mais tarde a vida permitiu-me conhecer pessoas fantásticas ligadas diretamente ao mundo da Arte, como o Marco Ayres, artista plástico, o Urbano da Cruz que é um artista visual e crítico de arte e à Mafalda D’Eça, uma artista visual e de restauros. Sempre guardo todos os conselhos do Urbano da Cruz que têm sido muito úteis para mim assim como da Mafalda D’Eça que me acompanha e ajuda muito no meu novo caminho artístico. Não posso esquecer de agradecer ao meu marido que me apoia sempre nesta caminhada artística. Sem eles todos eu não conseguia chegar até onde já cheguei!

As suas obras são repletas de simbolismos e de cores vivas. Há alguma razão específica ou apenas pinta o que sente representando assim uma vida cheia de cor, o seu quotidiano?

Acho que a nossa vida é cheia de símbolos, nós lidamos com muita simbologia na nossa vida diária sem nos apercebermos. Muitas vezes represento figuras, símbolos, deusas, natureza, bichinhos, universo – tudo que está a minha volta como se fosse o meu Mundo. Investigo as minhas memórias, tudo que tenho na alma, transformo a realidade através da minha imaginação e passo para tela.

Utilizo bastante as cores fortes nos meus trabalhos, cores vermelhas, amarelas, verdes, castanhas, cores vivas e quentes que representam o amor, a paixão e a alegria para aquecer um pouco a alma.

Adoro pintar os rostos, principalmente os olhos que olham depois da tela para o Mundo como se estivessem vivos.

O Artista Visual e Crítico de Arte, Urbano da Cruz, considerou o meu estilo de pintura como “Nova figuração simbólica”.

Protetora

Se pudesse recomendar uma obra sua aos nossos seguidores, qual seria?

É difícil recomendar só uma, recomendo ver várias, porque cada tela representa um pouco de mim e ajuda perceber melhor o que pretendo transmitir para o Mundo.

Como lida com as críticas? Incomodam-na ou são sempre bem-vindas?

Lido muito bem com todas as críticas e até agradeço, porque assim aprendo melhor e cada vez mais percebo que vale a pena continuar a pintar para aperfeiçoar os meus trabalhos.

O mundo das artes é muito complexo. Dá para viver da arte em Portugal? Como vê o futuro das artes?

Possivelmente para viver da Arte em Portugal, talvez só para artistas profissionais. Mas acredito que um dia vou ser considerada como uma artista profissional, porque trabalho e me esforço para que tal aconteça. Cada vez mais pessoas em Portugal gostam e apreciam Arte, e isso é um bom sinal. A cultura é fundamental para o desenvolvimento de um país.

Qual foi a primeira apresentação pública do seu trabalho? Como correu?

Para falar sobre a minha primeira apresentação ao público tenho primeiro que agradecer a um casal muito querido que é a Helena Peres e o Paulo Couto que me convidaram em 2017 num espaço fantástico no Jardim Botânico de Ajuda para fazer a minha primeira exposição “Cores da Vida”. Tenho que deixar o meu agradecimento muito especial para pessoas importantes na realização desta primeira exposição, ao artista visual e crítico de Arte, o Urbano da Cruz e à Mafalda D’Eça uma artista visual e de restauros. Agradeço muito aos meus familiares e a todos os amigos que estiveram presentes, que me deram e continuam a dar um apoio muito grande. Foi um dia inesquecível e muito gratificante.

Vende apenas telas originais ou também as suas reproduções?

No momento vendo apenas obras originais e únicas.

Qual a técnica que mais gosta de desenvolver?

Justiça equilibrada

Utilizo várias técnicas nas minhas pinturas, às vezes descubro algumas por mim própria. Pinto em acrílico sobre tela e utilizo pincéis, espátulas, esponjas, às vezes dedos, e até a tampa da caneta.

Qual o passeio que faz ou até onde viaja o seu imaginário pessoal quando está no processo criativo?

A viagem pelo imaginário é muito interessante neste processo todo, porque permite transmitir o sentimento através das tintas. As minhas pinturas falam e podem ser lidas através das tintas, cores, figuras, linhas e os símbolos. Ás vezes pinto aquilo que está na alma e na minha memória, passo pelo meu imaginário, utilizando alguns símbolos ou figuras sem saber o que vai sair para tela. Só na parte final percebo o que saiu e às vezes descubro algo novo. Muitas vezes pinto pela escolha de um tema concreto.

Gosto de pintar os quadros dípticos, os quais com duas telas com quatro ou mais posições diferentes, permitem fazer quatro ou mais imagens diferentes.

Este tipo de trabalho pede mais imaginação e criatividade.

Quanto amor, se é possível quantificar, existe em cada uma das suas telas?

Tudo que passo para tela sai de mim, da minha alma, do coração e sempre com muita amor.

Cada tela que pinto leva um pouco de mim. Por isso sempre que a minha obra encontra um novo Dono e vai para um novo lar – ganha uma nova vida isso dá me um prazer enorme!

Quando olha para o que acaba de criar como se sente? Qual a emoção que vivência?

Às vezes olho para um trabalho final e pergunto a mim própria: “Como é que eu consegui pintar isto?” É uma sensação estranha e sempre diferente. Pinto tudo com muita emoção e sentimentos e às vezes até falo para tela.

Olho para um rosto que imaginei e quando o termino esse rosto olha para mim como se fosse vivo e cheio de emoção! Sinto às vezes que as minhas telas estão vivas!

O poder dentro de si

Como e onde se podem adquirir as suas obras de arte?

Podem ver as minhas obras na página do Facebook: Larysa Kalinichenko Art

Partilho também no Instagram: Larysa Kalinichenko ArtPlastic

Aproveito para convidar todos a visitar a minha página na internet onde podem ver as minhas obras e os vídeos das exposições assim como as críticas. Podem aceder à página através do seguinte link: www.larysakalinichenko.com

Todos vocês são sempre muito bem-vindos e as vossas críticas e opiniões são muito importantes para mim.

Quais os artistas que mais admira e cujo trabalho a inspiram mais?

Admiro muito os grandes pintores que me inspiram também nos meus trabalhos como Gustavo Klimt, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Johannes Vermeer, Akiane Kramarik, Vasily Kandinsky.

Um projeto de sonho seria …

Tenho vários sonhos e projetos para realizar, mas só falo deles no dia em que se realizarem!

Obrigada Larissa! Que no futuro continue a trabalhar para nos surpreender com a sua criatividade e dar cor ao mundo inteiro.

Links importantes

Algumas exposições

Primeira exposição “Cores da Vida” 2017

Exposição “O Encanto da Mulher “ na Casa de Angola 2019

Exposição “Emoções a Flor da Pele “ na Cruz Vermelha Portuguesa em Estremoz 2019

Participação no Concurso XI Bienal Salão das Artes em Vidigueira, 2018

A entrevista original foi publicada no Blog “Huc Illuc” e pode ser lida AQUI

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